Nascer de novo: tema central de uma Parábola de Jesus

MAU RICO

Nascer de novo: tema central de uma Parábola de Jesus

                                               Prof Múcio de Melo Álvares

                     Lázaro, o nome do mendigo que aparece na parábola do rico mau e avarento,  vem do hebraico El-azar; Deus tem ajudado. Podemos interpretar, o  uso simbólico de um mendigo, nesta parábola, como uma categoria da humanidade que “Deus tem ajudado” nas reconquistas de suas falhas, através da imensa misericórdia que dá àquele que não cumpriu os compromissos que lhe diziam respeito na roda da vida:  a chance de retornar em uma reencarnação provacional ou expiacional.

                     Uma reencarnação provacional é aquela que o Espírito pode escolher o tipo ou o nível das provas pelas quais irá passar em uma vida para testar sua própria disposição em acertar mais e errar menos. Já uma reencarnação expiacional, ou expiatória, diz respeito à fatalidade evolutiva em que o Espírito nada pode optar ou opinar na programação reencarnatória, geralmente cheia de dificuldades e sofrimentos, descrita por André Luiz como “o suor e o choro no resgate justo”. Situação em que o indivíduo se coloca, após livre sementeira, na colheita obrigatória de seus próprios destemperos e disparates.

                   Nessa parábola, a fala significativa e simbólica de Abraão, enfatiza que a moral do Decálogo, recebida por Moisés  e que constitui a “Lei” por excelência, era, é, e será  a base, o alicerce, a rocha para a construção moral da verdadeira espiritualidade.

                    O Lázaro da parábola nos leva a deduzir que ele estava em um estágio evolutivo em que purgava seus débitos para com a Lei. Por isso, “vestia-se de chagas” – um manto de feridas que significava a limpeza das máculas de seu corpo espiritual, através do “mataborrão” do corpo físico. O corpo físico funciona como um filtro, um dispositivo que filtra as impurezas do perispírito. Como dizia Izaías (1:15-23): Lavai-vos (renascei através da água de novo corpo físico), purificai-vos (limpai-vos de todas as mazelas, através do sofrimento) e vosso pecados (deslizes, quedas com os próprios pés) que eram vermelhos como escarlate (sangrentos, muitas vezes significando homicídio, suicídio) tornar-se-ão brancos (limpos) como a mais pura lã (purificando o corpo espiritual, o registro das experiências evolutivas, sem manchas ou mácula)”.

                     Da leitura da parábola em Lucas 16:19-31, sobretudo no versículo 26, vemos que não há, segundo a linguagem de Abraão,  a proibição de comunicações na impossibilidade dos de lá passarem para cá e vice-versa. O verbo empregado é poder e não dever, como deveria ser, no caso de proibição. Abraão não diz: “os de cá não devem comunicar com os de lá”; mas  diz que “está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam; nem tão pouco de lá passar para cá.

                    Esta separação entre duas dimensões (material/espiritual) através  de um abismo, diz respeito à diferença vibratória entre essas duas dimensões. Uma comunicação entre elas não se faz de forma simples. É preciso romper barreiras, estabelecer uma ponte. Ponte que no caso podemos interpretar como a mediunidade. Mas mesmo esta requer, além de credibilidade, preparo e sintonia para que seja percebida e acatada em espírito e verdade. É por isso que Abraão contesta o pedido do rico em sofrimento, afirmando que os  seus irmãos  têm para seu ensino a moral da Lei e os Profetas. E se um espírito lhes aparecesse ou comunicasse não seria crido do mesmo modo que os judeus que viram os milagres operados por Jesus como o da cura de um cego de nascença, em vez de crerem no Mestre, cobriram-no de insultos e também ao cego curado, dizendo que Jesus fazia esses milagres inspirado pelo espírito do mal(João 8:48).

                  Afirmativa que nos leva a outra importante dedução: Não há, por parte de Abraão (e muito menos por parte de Jesus) a proibição da comunicação dos vivos de cá, com os chamados “mortos” de lá.

                  O diálogo figurado, de Abraão com o espírito do rico avarento e mau, é já uma prova de que os mortos podem comunicar-se porque vivem, ainda que no estado de sofrimento. Se assim não fora, como explicar que o espírito de Jesus descesse ao Hades – ao inferno, onde fora pregar aos espíritos em prisão, e que ali estavam desde o tempo de Noé …(I Pedro, 3:18-20)?

               Vale refletir: seria justo que as Leis Divinas permitissem “os mortos” atormentar seus parentes vivos, contando-lhes as desditas e sofrimentos? Achariam que era o demônio ou mentira do médium como acontece ainda hoje, com os religiosos que abominam o contato com o plano espiritual.

                  Com a afirmativa acima, outro ponto a destacar: O fenômeno convence menos que a Doutrina. Abraão afirma que, se o homem não se corrige com os princípios ético-morais revelados pelos céus à terra , na “Lei” e nos “Profetas” – não se corrigirá jamais pela simples comunicação  com um espírito. Os fenômenos surpreendentes da manifestação dos espíritos não têm, nem sempre, significação moral ou lição proveitosa para os ricos avarentos, egoístas e vaidosos que no caso, refere-se aos doutores da Lei, aos sumo sacerdotes do Sinédrio, pois o rico da parábola não é um rico qualquer. É um rico que se veste de púrpura e linho fino – tradução da palavra hebraica shesh, branco, vestimenta característica do sumo sacerdote, segundo o Dicionário da Bíblia, organizado por John D. Davis. Logo, não apenas diz respeito à riqueza amoedada apenas, mas a riqueza do conhecimento iniciático de todos os grandes doutores e sacerdotes do povo hebreu.

                  As migalhas da mesa do rico, ansiadas pelo mendigo, não eram apenas aquelas que aplacam a fome do corpo físico, mas as migalhas do esclarecimento das realidades espirituais que os grandes sacerdotes hebreus detinham em sua formação e em seu ministério e ocultavam do vulgo, do povo.

                A avareza e a maldade, traduzidas na passagem do texto, vão além da caridade material para com os carentes. Leva-nos a traduzi-las como a falta de compaixão, esclarecimento e consolo para com os que atravessam uma vida de provas e expiações.

               O prêmio de Lázaro, após a morte, nada mais é do que a “palma da vitória” para aquele que sofreu com resignação.

               A carinhosa advertência de Abraão ao rico: “Filho, lembra-te….” quis lhe dizer que sem voltar à vida corporal, semelhante a Lázaro, para sofrer as consequências do seu egoísmo, orgulho, ele, o rico não chegaria ao seu seio.

                Entre as parábolas e ensinos de Jesus a história, do rico e de Lázaro é tão clara quanto a necessidade de nascer de novo, purificar-se para ver e entrar depois no reino do céu, como o diálogo do Mestre com Nicodemos: “Ninguém entrará no reino do céu se não nascer de novo”.

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Fragmentos de notas de estudos da Bíblia Sagrada constantes das anotações do Prof Múcio Melo Álvares sobre a Parábola do Rico e de Lázaro, no Evangelho de Lucas 16: 19-31. Fonte: Anotações de rodapé de página e colagem inseridos à página bíblica referente a esta parábola, datada de 1963.

Copilação e revisão de texto:

Elzita Melo Quinta  / Elzi Nascimento  

Para ler  a Parábola do Rico e de Lázaro:

A Bíblia Sagrada –  O Novo Testamento – Evangelho de Lucas 16: 19-31

Allan Kardec- O Evangelho Segundo o Espiritismo – cap XVI it 5

Haroldo Dutra Dias – O Novo Testamento – Ev Lucas 16:19-31 – FEB

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