José Arigó por Jávier Godinho – publicado no DM em 1995

 JAVIER E ARIGO

                                                EU VI ARIGÓ CURANDO

                                                                              Javier Godinho

José Pedro de Freitas, Arigó. Para os cientistas norte-americanos, a oitava maravilha do mundo.

” Na noite de oito de agosto de 1967, o jornalista Batista Custódio dos Santos, diretor do semanário Cinco de Março, de Goiânia, estava a um passo da agonia. Desenganado pelos médicos, os rins deixavam de funcionar, provocando-lhe cólicas terríveis. A família em desespero, sua companheira Consuelo Nasser nos telefonou: – Só o Zé Arigó pode dar jeito.

Na madrugada de sábado, debaixo de chuva torrencial, seguimos os dois de automóvel para Congonhas do Campo, a 1.200 quilômetros de distância, além de Belo Horizonte.

Tínhamos alguma ligação com Arigó. Quando a Associação Médica de Minas Gerais o colocara nove meses na cadeia porque ele praticava,  gratuitamente , uma medicina que ela não entendia, o Cinco de Março o defendera destemidamente.

Chegamos à noite a Congonhas, linda e poética, cercada de montes encimados de igrejas e coqueiros e ocupamos um quarto no hotel próximo ao Centro Espírita Jesus Nazareno, onde  o médium atendia. A decepção foi enorme. O domingo era da Festa do Jubileu, tradicional romaria católica. Havia procissões e cânticos nas ruas e Arigó não trabalhava na segunda-feira, para evitar possíveis aborrecimentos.

Batista Custódio gemia na cama, ao nosso lado, sem esperança. No final da tarde, a boa nova: chegaram dois ônibus de doentes, do Uruguai e da Argentina e o sensitivo não tinha como não os atender.

Às quatro da madrugada de segunda-feira, já formávamos longa fila à entrada do Centro Jesus Nazareno, onde as pessoas se atropelavam. Arigó apareceu às sete horas e se sentou junto à mesa rústica, de onde o víamos através da larga janela aberta.  Na parede, uma foto mediúnica de Jesus. Ele fechou os olhos, brevemente orou em silêncio e, quando os abriu, estavam surpreendentemente vermelhos. As palavras eram duras, em sotaque prussiano. A primeira coisa que fez foi se aproximar da pequena multidão, e advertir rudemente os que tentavam, sob mil pretextos, furar a fila:  – Aqui ninguém passa na frente do outro. Não tem deputado, ministro ou trabalhador. Para Deus, são todos iguais.

E começou a atender, com velocidade incrivel. A fila corria. Ele olhava a pessoa, rabiscava a receita num papel e o passava a Preto, seu auxiliar, que datilografava e entregava ao interessado.

De repente, diz qualquer coisa, Preto se levanta e nos prega um susto. Vai à fila e chama Batista Custódio e nós. Homens e mulheres impacientes se afastam e, ao nos aproximar do médium, o doutor Fritz nos apavora: Fiquem vendo. Depois, escrevam a verdade.

Como ele sabia que éramos, os dois, jornalistas?

Rispídamente, Arigó se nega a receitar a um rapazinho, cabeludo, de terno, bonito. Sua voz ecoa alto, meio português, meio alemão:  -Passou a noite na farra e agora quer que Jesus o sare.  Dou remédio para seu corpo e sua alma o adoece de novo.

Mas se rende à humildade do moço:  -Presta atenção. Vou dar a receita. Mas se não mudar de vida, vai ficar pior…

É a vez de um casal jovem com uma criança dos seus 10 anos. Apresentam-lhe grandes radiografias. Doutor Fritz chama Batista:  -Presta atenção. É o seu caso.

Quem lhe dissera que a doença de Batista Custódio era reumática?

Marido e mulher contam que, há um ano, os médicos queriam tirar um rim do menino para lhe salvar a vida. Procuraram Arigó e ele disse que não precisava. Doutor Fritz indicou para a criança numerosos remédios e mandou que voltassem daí a 12 meses.  As radiografias, uma anterior ao tratamento e a outra atual, comprovavam o acerto do tratamento. Os dois rins estavam perfeitos.

Veio um doente com problema sério na vista esquerda. Arigó apanhou uma faca pequena, de cabo de madeira, que ficava em cima da mesa, dentro de uma lata vermelha de goiabada Colombo.  Enfiou-a inteira entre o globo e o osso da cavidade ocular.

-Segure aqui – determinou-nos, em tom irresistível de quem sabe mandar. Bambearam-nos as pernas. Como dizer não? Arigó apertou nossa mão direita que segurava o cabo e rodopiou a faca, olho de fora, irritado, enorme, cheio de veias, horrivel.

O paciente, cabeça encostada na parede, respondeu à nossa indagação:  – Doer, não dói. Mas estou sentindo tudo.

Quando Arigó retirou a faca, o olho estava limpo e todos nós quase em estado de choque.

Em quatro horas, calculamos 1.300 atendidos. Antes do meio dia, Arigó ia embora. Batista Cistódio foi o último. Doutor Fritz passou-lhe uma batelada de remédios e o jornalista quis saber se devia comprá-los nas farmácias das imediações.  Os adversários insinuavam que Arigó ganhava comissão nas vendas.

-Compre em Goiânia. Será mais fácil encontrá-los, foi a palavra do doutor Fritz, que nos deu uma incumbência: – Chegando a Goiânia, procura o professor Múcio – Múcio de Melo Alvares, diretor do Instituto Araguaia. Conte-lhe que os cientistas americanos que estiveram aqui, estudando Arigó, já foram embora. Que ele fique atento ao resultado.

Na viagem de volta, mesmo sem haver tomado ainda os remédios, Batista Custódio era outro. Está vivo até hoje.

E nós?

Nascemos com uma hérnia congênita. Desde a mais tenra idade, os médicos recomendavam operação. Parte  dos intestinos descia para junto dos testículos. Usávamos sunga expecial.

Atordoado naquela manhã de maravilhas com Arigó, ouvíramos o doutor Fritz alertar, sem nem de longe imaginar que seria conosco:  – Doentes que aqui se encontram e que não vieram buscar a própria cura, terão uma surpresa…

Trabalhava com ele uma falange de meia centena de médicos da espiritualidade. Era alguém , em qualquer lugar, pensar em ir a Arigó e médicos invisíveis já o examinavam. Quando o enfermo chegava a Congonhas, doutor Fritz dele já sabia de tudo.

Um mês depois da viagem, descobrimos a ausência da hérnia escrotal, companheira indesejável de quase 31 anos. Nunca mais tivemos notícias dela.

Antes de dezembro, passávamos por uma banca de jornal da Avenida Anhanguera, em Goiânia e nos chamou atenção a segunda notícia da primeira página, logo abaixo da manchete do exemplar aberto de “O GLOBO” , na foto, José Pedro de Freitas, o Arigó, todo ligado a fios, luzes e aparelhos sofisticados, cercados de circunspectos pesquisadores, como num filme de ficção científica. Título: “Cientistas norte-americanos concluem: Arigó é a oitava maravilha do Mundo”.

ALGUNS FATOS CONHECIDOS

1956 / O padre José Della Mutta, padre Zezinho, muito popular em Goiânia como educador e vigário do Ateneu Dom Bosco comparece ao Hospital São Lucas para ministrar a extrema-unção a um aluno, desenganado pela junta médica, acometido de nefrite e uremia. Nome do Doente: Batista Custódio dos Santos.

1962 / O jornalista Lourival Batista Pereira, o colunista LBP de “O POPULAR”, conversa com o médico Dirley de Souza Aguiar, em frente ao Grande Hotel. Na calçada passa um jovem, alto, magro, e o doutor Dirley o mostra a LBP e lamenta:  – Está vendo aquele moço?  Não tem mais dois anos de vida. No laboratório do médico, o rapaz fazia rotineiramente os exames de sangue e urina. Nome do condenado à morte : Batista Custódio dos Santos.

1967 / Batista Custódio dos Santos ouve do Doutor Fritz, em Congonhas do Campo: – Você vai sarar.

1995 / Batista Custódio dos Santos, aos 57 anos de idade, trabalha, normalmente, como diretor do “Diário da Manhã”.

Observação : Este artigo foi um depoimento do jornalista Jávier Godinho, testemunha ocular do doutor Fritz, escrito em 1995.

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